03/05/2021 12:07

Pequenos agricultores dominam a produção de temperos no Brasil

Setor de condimentos sofre com escassez de dados oficiais. Entre os mais populares do país, cebola, pimenta e alho também têm ação anti-inflamatória.

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O alho, a cebola, a pimenta e o cheiro verde são as ervas e especiarias de maior fôlego no Brasil. — Foto: Tiard Schulz/Unsplash

Sabia que além de temperar, o alho também vai reforçar sua vitamina C e ter ação anti-inflamatória? Ele possui propriedades medicinais, assim como outros condimentos, que também podem ser usados no shampoo e na maquiagem.

Dominado pelos pequenos produtores, o setor de temperos é promissor, com um aumento de mais de 14% do valor em exportações na comparação com 2019 e 2020, segundo dados do Ministério da Agricultura que somam chá, mate e especiarias.

Mas, ainda assim, ele sobre sofre com a escassez de dados sobre a sua produção e consumo.

Isso acontece exatamente por ter um cultivo de pequenos agricultores em sua maioria, dificultando o monitoramento, bem como por ser uma cadeia muito informal, que acaba não movimentando tanto dinheiro quanto outros cultivos, como a batata ou o tomate, explica Lenita Haber, analista de Transferência de Tecnologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

 

Uso de temperos é versátil no Brasil. — Foto: Arte / G1

Uso de temperos é versátil no Brasil. — Foto: Arte / G1

Não é só comida

Os temperos proporcionam benefícios à saúde por terem compostos funcionais, antioxidantes, substâncias anti-inflamatórias, bactericidas, entre outros, explica Guilherme Reis Ranieri, especialista em plantas alimentícias não convencionais, colaborador no projeto Hortaliças Tradicionais e Técnica Dietética e doutorando em patologia pela Faculdade de Medicina Universidade de São Paulo (FMUSP).

Alguns exemplos disso são:

  • o orégano, que auxilia na digestão e na dor de cabeça;
  • a erva doce, que alivia a cólica;
  • Pimenta, que pode ajudar a ativar a digestão e é um anti-inflamatório;
  • Cebola e alho, que também têm componentes anti-inflamatórios.

De acordo com Ranieri, o uso dos condimentos com fins médicos ou não é uma questão regional. É o caso do manjericão, que, segundo o especialista, no Nordeste é mais usado como erva medicinal, enquanto no Sudeste é apenas um ingrediente culinário.

Ainda assim, ele afirma que todo tempero pode ser um medicamento. Contudo, para usá-los com este objetivo, o ideal é consultar um médico, que orientará em relação à quantidade da erva ou especiaria a ser colocada em uma infusão e a regularidade do consumo.

No Brasil, profissionais da saúde, inclusive do Sistema Único de Saúde (SUS), são capacitados para este tipo de orientação, conta o especialista.

Apesar das vantagens, muita gente pode optar pelos famosos temperos ultraprocessados, como aqueles que vem em cubos, por exemplo. Mas estes possuem uma alta quantidade de sal e gordura, além de compostos químicos para intensificar o sabor. Ranieri diz que isto não é bom porque vicia o paladar:

“O problema é que as pessoas estão acostumadas a sentir o sabor muito intenso. A gente tem que se acostumar a sentir o sabor das coisas como ele é, sem ter esse monte de tempero para realçar. Assim, quando as pessoas usam o tempero natural, elas nunca acham que tem tempero o suficiente”.

As vantagens dos condimentos não param na sua ingestão, eles também são usados na indústria dos cosméticos. É o caso do alecrim, ingrediente de produtos voltados aos cabelos, pois proporciona vigor e brilho.

A popularidade das ervas e especiarias na indústria da beleza acontece por dois motivos, segundo o gestor ambiental: eles permitem uma produção em larga escala e são produtos que estamos acostumados a consumir, portanto diminuem os riscos de efeitos colaterais.

Os temperos também podem ser usados para dar aroma ou sabor aos cosméticos.

Veja como é o cultivo no Brasil da cebola, alho e pimenta:

Tamanho é documento

O brasileiro come 6 kg de cebola por ano, segundo Lenita Haber, analista da Embrapa.  — Foto: Quele Ribeiro Pereira

O brasileiro come 6 kg de cebola por ano, segundo Lenita Haber, analista da Embrapa. — Foto: Quele Ribeiro Pereira

A cebola é um dos temperos mais presentes na vida do brasileiro, com um consumo per capta anual de 6 kg, de acordo com Lenita Haber, analista da Embrapa.

Mas, não é qualquer cebola que agrada o brasileiro. Para ter boa comercialização, ela precisa ser do tamanho “caixa 3”, que é o maior, conta Rafael Corsino, presidente da Associação Nacional dos Produtores de Cebola (Anace).

Por causa disso, o grande desafio dos produtores hoje é o controle das doenças que impedem que a cebola alcance o tamanho esperado.

As enfermidades mais comuns são causadas pelos fungos de solo e os vermes nematoides, que afetam as raízes, e as bacterioses, que aparecem em ambientes quentes e úmidos dificultando o desenvolvimento das folhas.

Mãos na terra

Corsino conta que o segredo para ter uma boa produção de cebola é manter um solo com saúde física, química e biológica, impedindo a falta de cascalho, excesso de cálcio, entre outros elementos, obtendo um ambiente equilibrado.

Dá para fazer isso com o controle do solo a partir de produtos biológicos, que proporcionam uma maior segurança alimentar, e estão substituindo os defensivos químicos, afirma o presidente da Anace.

Outras inovações do setor, incluem a agricultura de precisão, na qual é feito o levantamento do solo e apenas os locais necessários são adubados. Isso tem ajudado os produtores a economizarem.

Futuro

Apesar dos avanços, existem pontos a serem melhorados. Corsino explica que os pequenos agricultores precisam se especializar.

Eles são responsáveis por 69% da cadeia produtora. Dos restantes, 23% são médios produtores e apenas 8% grandes, conta a pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (CEPEA-Esalq/USP), Marina Marangon.

Para ela, o setor tem espaço para evoluir em produtividade, mas “falta também uma melhor coordenação entre os elos da cadeia, do agricultor até o consumidor final”.

Reforço internacional

Em 2020, o brasileiro consumiu 36 milhões de caixas de 10 kg de alho, segundo Anapa. — Foto: Divulgação

Em 2020, o brasileiro consumiu 36 milhões de caixas de 10 kg de alho, segundo Anapa. — Foto: Divulgação

A produção de alho no Brasil está em crescimento, mas ainda não é autossuficiente.

Em 2020, o brasileiro consumiu 36 milhões de caixas de 10 kg de alho, dos quais 54% foram importados. Para 2021, espera-se que este número caiam para 50% do consumo no país, segundo a Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa).

Apesar da produção ainda baixa, o consumo do tempero no Brasil vem crescendo, aponta a Anapa. Na comparação entre 2020 e 2019 - quando os brasileiros compraram 30 milhões de caixas de 10 kg - o aumento foi de 20%.

Mãos na terra

O alho é uma cultura anual, que possui duas características essenciais para o cultivo: ambiente frio e uma altitude de 300 a 500 metros, pois, além de serem lugares mais gelados, proporcionam dias mais longos, explica a pesquisadora da Embrapa Lenita Haber.

Para a produção em outros ambientes, é usada a técnica de vernalização, que gera o alho nobre, que possui uma cabeça roxa e é o mais popular no Brasil. Nela, o alho é colocado em uma câmara fria, por até 60 dias, com uma temperatura em torno de 3°C e com a umidade controlada.

A produção do alho também é muito manual, por causa das especificidades da plantação, que dificultam a mecanização.

Um exemplo disso é a questão do alho ter de ser plantado com a sua parte mais fina para cima, como se o dente estivesse em pé. Se ele for plantado ao contrário, não se desenvolverá porque a raiz saí pela parte mais larga dele. Atualmente, as máquinas ainda não conseguem precisar esse fator.

Futuro

Lenita acredita que este tempero pode se tornar autossuficiente para abastecer o Brasil no futuro. Isso por causa do aumento de área plantada e da produtividade, motivado, principalmente, pelo avanço do alho em outras regiões do país, inclusive as mais quentes, graças a tecnologias como a irrigação.

Do bar ao vaso ornamental

Brasileiro consome 0,5 g por dia. — Foto: Divulgação

Brasileiro consome 0,5 g por dia. — Foto: Divulgação

Em todo boteco, pastelaria ou restaurante há aqueles molhos de pimenta. Eles são feitos a partir da família da Pimenta Capsicum, que, no Brasil, é produzida majoritariamente pela agricultura familiar associada à indústria processadora. Esta, além de criar os molhos, desenvolvem as conservas, conta a pesquisadora da Embrapa Hortaliças, Cláudia Ribeiro.

Em 2015, o consumo per capta diário da pimenta era de 0,5 g por dia, aponta a analista Lenita Haber.

Mãos na terra

Assim como o alho, a pimenta ainda exige uma grande mão de obra e sofre com a falta de variedades de máquinas que atendam a colheita da pimenta. Por existir muita diversidade de pimenta, uma única máquina não consegue se adequar a todas elas e pode quebrar galhos, levar a perda dos frutos e prejudicar a produtividade.

Por esta razão, os agricultores investem em áreas menores de plantio, em torno de 2 a 5 hectares, para economizar em pessoal, conta Cláudia. Ao todo, a Embrapa estima que o Brasil tenha 5 mil hectares de área cultivada, gerando anualmente 75 mil toneladas da especiaria.

Contudo, Cláudia entende que este número deve ser menor do que o valor real. Isto porque, por se tratar de um setor majoritariamente de pequenos produtores, existem dados não relatados.

Futuro

Cláudia tem observado também uma alteração no nicho de mercado da pimenta, que agora tem sido viabilizada para cultivo em vasos, não apenas para decorar a casa, mas também para consumo próprio.

Além disso, ela acredita que o futuro da pimenta estará juntamente ao mercado de orgânicos.

“Mas é preciso avaliar melhor as demandas dos sistemas agroecológicos para o desenvolvimento de cultivares que atendam demandas específicas do setor, como resistência a pragas e doenças", explica.

A pesquisadora realça também a importância de "cultivares mais eficientes na absorção de nutrientes, que se adaptem melhor a sistemas de consórcios e rotações que atendam demandas específicas de produtos processados para o mercado orgânico”.

 

Fonte: G 1