01/09/2020 12:31

A menina sem nome, por Jorge Pereira da Silva

Pra quem não conhece as folias de reis, via de regra o bastião, aquela figura assustadoramente enfeitada que habita o imaginário popular, à frente da trupe, guarda a bandeira.
 

O bastião estava pomposo, era dia de chegada, todos se esforçavam um pouco mais que o corriqueiro, os holofotes pareciam voltar-se, acompanhando o movimento da companhia, e eu voltava de viagem, ávido para ajudar com o que fosse preciso.
 

Como a turma estava cheia, restou-me função pouco desejada: ir de porta em porta perguntando aos moradores se desejavam ou não receber a cantoria; o embaixador baforava tranquilamente um cigarro, era momento de descanso e a turma quase dispersa.
 

Uma casa solitária ao longo de uma travessa não podia passar batido! Fizera questão de ir até o local, o que fez com que os foliões ganhassem fôlego, enquanto me aguardavam na esquina.
 

Na casa, encerrava-se um silêncio quase absoluto, não fosse o barulho da rua. Pelo viés da porta semi-aberta um raio de sol guiou minhas vistas até um quarto de tacos, depois de cruzar a sala.
 

Chamei do alpendre: ô de casa! Ouvi um gemido gutural, vinha do quarto. Receoso, chequei se ainda estava guarnecido pelos companheiros, o bandeireiro e o bastião me olhavam, da esquina, como quem questionasse: vai ou não vai?
 

A casa tinha uns oitenta anos, ou mais. Coloquei a cara pra dentro da porta, cego pela escuridão, perguntei rápida e grotescamente: “Quer que a companhia cante aqui?” E já ia saindo quando, cri, ouvi o que parecia um “quero”, gutural, baixo.
 

Estaquei arrepiado, sabe-se lá por que. Nesse momento vi surgir um magro alto, vindo dos fundos; pude ver-lhe a palidez, enquanto vestia a camisa, de quem não saía de casa – a menina quer, você não ouviu? Entra aqui pra você ver – e me fez segui-lo até o quarto.
 

Do batente do quarto avistei uma penteadeira tão antiga quanto a casa, repleta de imagens, de santos dos mais variados, de Nhõ João de Camargo a uma réplica mal feita do Davi de Michelangelo.
 

Deslizei, mesmo sem querer, o olhar de lá pra cama de casal, no centro do cômodo. Um colchão de palha coberto por um lençol amarelado afundava-se, de tanto sustentar a menina.
 

Ela estava deitada meio tortinha, a paralisia cerebral fizera atrofiar-lhe os membros que, colados ao corpo, enrijeciam-se quando esboçava emoção: agitou-se na minha presença e os grandes olhos estrábicos moviam-se freneticamente. A respiração ofegante, por entre os dentes curtos que se amontoavam na boca diminuta, parecia fazer soar duas notas, inspirava lá e expirava mi, o mal estar revelava-me esse delírio.
 

O cabelo nunca lhe fora cortado.
 

Qual é o nome dela? – interpelei o magro – a gente chama ela de menina, minha mãe morreu no parto e meu pai logo depois, de desgosto; achei que a menina não ia agüentar, mas ela foi ficando, é difícil registrar sem pai, né? Mas também, coitadinha, a vida dela é essa aí mesmo. Tá com uns quinze anos já.
 

Estarrecido, avisei que chamaria a turma; saí na rua, meio tonto e, quando dei por mim, vi que a companhia seguira; corri. Já andavam uns 200 metros, questionei-os, a menina queria que cantasse. Demorara muito, não voltariam, eu que avisasse, numa próxima, cantariam.
 

Voltei à casa antiquada, restou-me dar-lhes a notícia. Da porta mal encostada, como outrora, gritei:
 

- eu vim pedir desculpas, a companhia não vai cantar –
 

- ta bom – parecia a voz do magro.
 

Não bastou consumar a negativa, senti-me impelido, queria vê-la mais uma vez. Entrei sorrateiramente, da sala, contemplei-a, agitadinha, a menina sem nome. Um sentimento catártico se apoderou de mim, a compaixão que sentira outrora misturada ao alívio de não estar naquela pele, albina.
 

Tal qual descarrego, tal qual descarga elétrica, o contato com esse misto de gente e de nada me remontou certa vivacidade. Já me afastava da casa, olhei para trás e vi, saídas do fundo, duas jovens vestidas como prostitutas a me encarar cinicamente.

Fonte: Jorge Pereira da Silva