25/05/2020 15:55

Dia Nacional da Adoção traz reflexões para a sociedade

“Adoção não é caridade, adotamos porque queremos ser pai e mãe”, afirma coordenador do grupo de pais adotivos em Amambai.

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Desconhecido por muitos, o processo de adoção de crianças e adolescentes no Brasil ainda sofre diversos preconceitos. Nesta segunda-feira, 25, comemora-se o Dia Nacional da Adoção. A equipe de reportagem do Jornal A Gazeta procurou o Grupo de Pessoas que Adotaram ou Desejam Adotar em Amambai, para esclarecer diversos fatores desse processo.

De acordo com o coordenador do grupo, Alexsandro Rodrigues, eles realizam reuniões mensalmente com o objetivo de “trazer o entendimento do processo de adoção, que gera mudanças na vida de pais adotivos e crianças, além de conscientizar a sociedade da importância da adoção e  combater os preconceitos naturais e embutidos na sociedade”, destaca Alexsandro, que também é um pai  adotivo.

Ele esclarece alguns preconceitos que são combatidos diariamente, entre eles a distorcida ideia que as pessoas têm ao associar a adoção com caridade. “As pessoas aceitam a adoção e acham um ato bonito, mas muitas vezes entendem com a visão de que está fazendo um favor à criança. Adoção não é caridade, adotamos porque queremos ser pai e mãe e não porque temos dó da criança”, destaca.

Outro preconceito muito comentado é com relação à visão que a sociedade tem da família constituída com filhos adotivos. “Sempre tem aqueles que perguntam: ‘e quando vocês vão ter o de vocês?’ Para mim eles são os nossos filhos. Muita gente não considera que são filhos, por conta de um preconceito que está embutido na sociedade”.

Adoção é um ato extremamente importante para a sociedade, mas que ainda precisa superar muitas barreiras. O grupo destaca que os primeiros passos para quem quer adotar é vencer os próprios preconceitos, estar preparado para lidar com a opinião da sociedade e conhecer a fundo todo o processo, que pode ser de  longa espera.

“A opção da adoção entrou em minha vida há cinco anos. Primeiro tivemos que vencer nossos preconceitos  individuais, e após 3 anos de espera na fila de adoção, conseguimos adotar nossos filhos. Nossas vidas passaram por uma grande mudança. Casais quando engravidam esperam 9 meses e esse tempo serve como uma preparação psicológica e estrutural, como comprar roupas, móveis, brinquedos e tantas outras coisas. Enquanto casais adotantes tem uma espera bem mais longa. A mudança foi acompanhada de alegria e medo(...)alegria de termos uma casa com crianças que em sua ingenuidade e ternura, tornam nosso dia repleto de surpresas(...)e medo de não conseguirmos dar conta, mas adoção é um processo e no meu caso abençoado por Deus. A cada dia fomos aprendendo a cuidar e amar nossos filhos e cada dia eles foram nos amando mais. Hoje nossos filhos do coração nos preenchem , não conseguimos imaginar como seria nossa vida sem eles (...) são presentes de Deus em nossa vida.”, relata.

Processo de adoção

Assim como Alexsandro, há vários casos de pais que ficam 3 ou 4 anos na fila de adoção em Amambai e também há crianças que aguardam o processo judicial para se tornarem aptas para o acolhimento.

“Para a criança esse tempo traz efeitos, pois ela se institucionaliza, passa a acostumar com as regras da casa de abrigo e quando é inserida em uma família, o processo de adaptação é mais demorado.  No  grupo temos  palestras com psicólogos e profissionais da área,  e partilhas de temas com casais que adotaram com bastante tempo de convivência”, conta.

A criança só fica disponível para adoção quando todas as possibilidades de reinserção na família biológica estejam esgotadas.

Como adotar?

O primeiro passo para quem quer adotar é procurar o Fórum(Vara de Infância e Juventude) e fazer o cadastro nacional de adoção. Lá, a pessoa obterá informações específicas sobre o processo e saberá de toda documentação necessária para se inscrever.  Após protocolar a inscrição, a pessoa – ou casal – deve participar de um curso de preparação psicossocial e jurídica voltada para adoção. Nesse curso, os candidatos a adotantes adquirem uma noção mais ampla da importância da preparação emocional de toda a família e de todas as mudanças que virão com a chegada de um novo integrante.

Após o curso, a pessoa se submete a uma entrevista com psicólogos e assistentes sociais que assessoram o juiz da Infância e Juventude. Essa entrevista é feita para que o juiz, através de seus assessores, conheça melhor aquela família e as relações que são vivenciadas por ela. É também nessa etapa que os postulantes à adoção especificam o perfil de jovem que querem adotar. (Informações da Agência Brasil)

O Grupo de Pais que adotaram ou querem adotar de Amambai está à disposição dos interessados que queiram tirar dúvidas sobre o processo de acolhimento de crianças e adolescentes. Telefone para contato: (67) 9.9920-5974

Depoimentos de pais adotivos em Amambai

- Depoimento de Elisângela Cazari:

“Me chamo Elisângela Cazari e vou relatar um pedacinho da minha história.

Nos dias de dar à luz num hospital público de Umuarama (PR), uma mulher por nome de Maria Luzinete, com apelido "Japa", empregada do sr. Waldemar Cazari e Ester Ribeiro Cazari, perdeu sua bebê por complicações, acreditando-se que tenha passado da hora. Dona Ester tem uma filha por nome Ivone, que ficou furiosa com a negligência do hospital, por terem perdido a bebê da Japa, e a enfermeira Didi, vendo essa reação da família, disse à dona Ester para não se preocupar, pois com muita frequência chegavam mães no hospital que não queriam seus filhos. Dona Ester disse que não havia interesse, a preocupação era com a bebê da Japa, mas ficou registrado no hospital o telefone da Ivone, filha da dona Ester.

Um certo dia tocou o telefone. Ivone atendeu e era do hospital dizendo que havia uma bebê que seria deixada para "adoção". Ivone ligou para dona Ester, que por curiosidade foi até o hospital e, chegando lá, a enfermeira buscou a bebêzinha, a colocou nos braços da dona Ester e disse: “toma, leva!”. Dona Ester ficou sem saber o que fazer, pensando como chegaria em casa com uma criança, como enfrentaria seu esposo que era nada calmo. Ela olhou para a criança e não conseguiu deixá-la. 

A família não estava na lista para adoção porque não tinha planos para isso e a criança da vez, no caso essa, iria para Curitiba (PR). Mas como a enfermeira se lembrou do escândalo feito pela Ivone no dia que morreu a criança da empregada, ela fez um desvio de planos.

A palavra de Deus diz que "há um propósito para tudo embaixo do céu" e eu tenho certeza que Deus cuidava de mim naquele dia, que Deus havia trabalhado desde o início quando eu ainda estava no ventre da minha mãe, sendo já rejeitada, no entanto até hoje sem saber se por vontade própria ou obrigada.

Assim fui levada para a casa da dona Ester e sr. Waldemar, meus pais, minha família...

Muitas pessoas têm medo de adotar e eu não tiro a razão, mas que o coração fale mais forte, que o amor fale mais forte e que coloque Deus à frente de tudo. Deus é amor e esse é o seu maior mandamento! Que o amor supere os medos e os desafios e que Deus seja a base na vida dessa criança adotada, porque assim sendo, tudo dará certo!”

Depoimento de M.D.O:

"Eu e minha esposa estávamos há 6 anos na fila de adoção. Apesar de nosso perfil ser bem abrangente quanto ao perfil das crianças, nunca havíamos sido chamados para conhecer uma criança. 

Em 2018, nos mudamos para Amambai e transferimos nosso cadastro para o município e depois de longos 6 meses nosso cadastro foi efetivado no MS. Para nossa surpresa, havia duas crianças aptas para a adoção e havia chegado a nossa vez de estarmos em “trabalho de parto”. 

A partir da ligação que recebemos do fórum, o coração começou a bater mais rápido e tivemos que nos desdobrar para viajar e conhecer as crianças. Quando vimos aquelas duas pessoinhas de 2 e 4 anos em nossa frente, foi um misto de emoções e de dúvidas também. Afinal, não nos conhecíamos, éramos estranhos. Mas permanecemos firmes em nosso objetivo de amar aquelas crianças e nos descobrir como pais. Afinal tudo é um processo de aprendizado e persistência. 

Tivemos que lidar com muitas questões e dificuldades, desde o preconceito da sociedade em ver uma família bem colorida, como também as dificuldades burocráticas e da adaptação, mas com paciência e ajuda de muitas pessoas fomos em frente. Não nos conformamos com as dificuldades e ficamos firmes na certeza da família que Deus tinha nos concedido. 

Fomos agraciados em conhecer pessoas que eram pais por adoção, ou que também tinham a vontade de formar família pela adoção, no grupo de apoio de adoção que estava começando em Amambai. Foram encontros muito bons para compartilhar as dificuldades e também as alegrias de ser pai e mãe através da adoção. Isso foi terapêutico e auxiliou muita nossa família. 

Não existe fórmula certa para ser pai e mãe, seja por meios biológicos ou por adoção. Quando nos dispomos a amarmos, vemos que podemos ser muito mais fortes do que sabíamos. Estamos muito felizes com nossa família e é maravilhoso poder compartilhar a vida, aprender a amar e ser amado. Independentemente da idade, cor da pele ou do passado biológico. 

Amo a família que Deus nos presenteou."

Fonte: Raquel Fernandes/ Grupo A Gazeta