Clesio Damasceno/A Gazeta
Prestes a completar três anos de funcionamento em Amambai, a URPI (Unidade Regional de Perícia e Identificação de Amambai) presta um serviço de extrema importância para a comunidade. No próximo mês de julho, a unidade completa três anos e já atendeu mais de 4.500 requisições de exames periciais.
Para a maioria da população, o local funciona como um “IML”, onde exumam cadáveres e fazem exames para saber as causas da morte. Mas o trabalho vai muito além disso. Para entender toda a dinâmica e funcionamento da URPI, o Jornal A Gazeta visitou a unidade na última quinta-feira (27) e falou com os responsáveis pelos trabalhos.
Instalada em julho de 2022, numa parceria entre Estado e prefeitura, a unidade é de total responsabilidade do Estado. A prefeitura, até o último mês de março, arcava com o pagamento de aluguel das instalações (desde fevereiro o Estado assumiu essa conta) e cede alguns estagiários que auxiliam nos trabalhos ali. Em contrapartida, a prefeitura utiliza as instalações, que foram estabelecidas por termo de cooperação entre o Estado e o município para a realização dos exames de SVO (Serviço de Verificação de Óbito), que são de responsabilidade do município.
Os exames que comprovam causas de morte natural são os chamados SVO, que são feitos por médicos que prestam serviços para a prefeitura. Já os exames que vão comprovar causas de morte violenta por crimes ou acidentes são feitos por Peritos Médicos Legistas da Polícia Científica.
A ESTRUTURA DA POLÍCIA CIENTÍFICA
A URPI funciona no antigo prédio do Hospital Santa Joana (local bastante conhecido pelos amambaienses). A Gazeta foi recebida na Unidade primeiramente pela papiloscopista Simone Molina e depois pelo perito criminal, Paulo Henrique Oliveira, que acompanhou a reportagem do jornal, mostrou as instalações e explanou sobre o serviço prestado.


O atendimento da Unidade de Perícia e Identificação atende além de Amambai, os municípios de Coronel Sapucaia, Paranhos, Sete Quedas e Tacuru, compreendendo uma população de cerca de 90 mil pessoas, sendo boa parte moradores de aldeias indígenas.
Na unidade, além de recepção, sala de espera, banheiros, cozinha, almoxarifado e depósitos, tem as salas específicas onde são feitas as perícias e serviços de identificação. Destaca-se o núcleo de Medicina Legal, onde são feitos exames de corpo de delito nas vítimas e nos autores de violência.
Um ponto importante neste núcleo é que autores e vítimas nunca ficam no mesmo ambiente para serem examinados. Existem alas separadas. “Não deixamos vítimas e agressores no mesmo ambiente, por uma questão de segurança e também para evitar revitimização”, explica Paulo.
SALA LILÁS
A Sala Lilás é onde as vítimas – menores, crianças, que sofrem violência – recebem atendimento enquanto aguardam os exames de corpo de delito. Buscando um atendimento humanizado para as vítimas e seus familiares, evitando a sua revitimização, nesta sala foi investida uma decoração e mobília específica para que a criança se sinta acolhida, com brinquedos, mesa para desenhos, televisão e acompanhamento de uma técnica de enfermagem especializada para prestar o melhor atendimento possível.





OUTROS NÚCLEOS
O Núcleo Regional de Criminalística é muito importante. Nesse ambiente, há um laboratório, onde os Peritos Criminais examinam as peças e objetos colhidos no ambiente do crime ou acidente violento com vítimas. Esses itens são apreendidos e depositados para serem minuciosamente analisados, determinando dinâmica dos eventos, causas e buscando a verdade real dos fatos, por meio da ciência.
Ainda na URPI há um núcleo específico para a identificação cível e criminal de suspeitos de fraudes, e também onde são colhidas informações para a emissão do documento de identidade (o RG – Registro Geral).
Por fim, a sala de necropsia, onde os corpos são levados para análise pericial e para a coleta de vestígios que vão ajudar na elucidação dos fatos.

PESSOAL E DINÂMICA DOS TRABALHOS
A URPI de Amambai conta 4 médicos legistas, 9 peritos criminais, 8 agentes de polícia científica e 4 peritos papiloscopistas, além de 2 estagiários que auxiliam nos trabalhos. No dia a dia o trabalho é feito pela equipe plantonista composta por 1 Médico Legista, 1 Agente de Polícia Científica, 1 Perito Criminal e 1 Perito Papiloscopista.
“Toda vez que acontece um crime ou acidente violento com morte, ou acidente de trabalho, a URPI é acionada e uma equipe de peritos se desloca ao local dos fatos para colher informações, vestígios, colher objetos e preservar o local e o corpo, no caso de vítimas fatais, para exames, que vão identificar as causas”, explica Paulo.
Antes da URPI ser instalada em Amambai, esse serviço era realizado em Ponta Porã, o que acabava gerando atrasos nas confirmações dos exames e prejuízos, tanto para a comunidade, que, além do sofrimento pelos fatos envolvendo familiares, ficava com a angústia da liberação do corpo para os procedimentos de sepultamento, e ainda para a própria polícia na elucidação dos crimes ou delitos ocorridos.
Três núcleos de atuação compõem a Polícia Científica de Amambai; o IMOL (Instituto Médico e Odontológico Legal, que antes se denominava IML, que faz a necrópsia (exame de cadáver para ver a causa da morte), exames de lesão corporal, exame sexológico (que é feito em caso de estupro), exames em ossadas, entre outros. O Núcleo de Identificação – que é responsável pela emissão de RG e perícia papiloscópica em documentos e locais de crime, e o Núcleo de Criminalística, que vai até o local de crimes e acidentes para colher objetos e preservar provas que vão passar por perícias que vão ajudar a elucidar o ocorrido. Além desses trabalhos, ainda realizam perícias em veículos, documentos, armas, drogas, locais de morte violenta, como homicídios, suicídios, acidentes, entre outros.

Para se ter uma ideia da importância do trabalho de Polícia Científica, explica Paulo: “quando há por exemplo, um suicídio por enforcamento, a equipe de perícia vai até o local, retira o corpo da vítima, os Peritos Criminais periciam o local em busca de detalhar se a cena de crime é compatível com os vestígios, os objetos são cuidadosamente retirados e colocados numa embalagem de segurança devidamente lacrada, o corpo é encaminhado para o IMOL para também passar pela perícia pelo Médico Legista, afinal um suicídio pode ser a tentativa de disfarçar um feminicídio, como já aconteceu aqui na região. A equipe da Polícia Científica trabalha de forma integrada entre os três núcleos para elucidar os crimes e obter vestígios por menores que sejam, pequenos detalhes são fundamentais para elucidar um fato e determinar os autores”.
URPI já recolheu corpo durante velório para exames
A Unidade Regional de Pericia e Identificação de Amambai (URPI), durante quase três anos de atuação em Amambai, já recolheu corpos que estavam sendo velados para serem periciados. Conforme informações passadas ao Jornal A Gazeta, por 4 vezes durante 2 anos e 9 meses, isso aconteceu em Amambai.
Isso acontece porque, quando acontece uma morte supostamente por causa natural, é emitido um laudo pelo Sistema de Verificação de Óbito, que emite laudo para causas naturais. No entanto, se familiares da vítima do óbito registrarem um boletim de ocorrência, suspeitando de a causa da morte ter sido ocasionada por ações externas (homicídio ou acidente, por exemplo), a perícia é acionada e o corpo passa por exames.
Um dado preocupante e que merece um alerta, são os casos de violência sexual envolvendo menores de idade, sobretudo crianças e adolescentes. Conforme o site https://estatistica.sigo.ms.gov.br/ mantido pelo governo estadual, do total de casos desde 2022 até o mês de março de 2025 há 351 casos de estupro, sendo 162 casos contra crianças e 140 casos contra adolescentes, cerca de 86% dos casos de violência sexual atendidos pela URPI em Amambai são de crianças e adolescentes. Nesse caso, tanto a vítima quanto o agressor passam por exames periciais de corpo de delito, e são coletados vestígios para obter provas do crime praticado.
TRABALHO IMPORTANTE
São mais de 40 tipos de exames realizados: exames necroscópicos, corpo de delito, exame cautelar, coleta de material biológico para confronto de DNA, sexológico, lesão corporal, embriaguez – medicina legal, exame em local de morte violenta, acidente de trânsito, furto, exame toxicológico, exame de identificação veicular, balística forense, reprodução simulada, áudio e vídeo, extração de conteúdo de aparelho celular, exame em objetos – Núcleo de Criminalística, Exame em locais de crime, objetos, veículos, BIC, Necropapilocópico, identificação civel, AFIS – Núcleo de identificação, para citar os principais, além de crimes ambientais e maus tratos a animais.
A URPI presta um serviço de extrema importância para o município e região. Um trabalho complexo, de bastidor, feito na linha de investigação sigilosa, que passa desapercebido pela população.