Gazeta de Amambaí


Quarta-Feira, 17 de Outubro de 2018 às 23:17

Reencarnação, por Jorge Pereira da Silva

Jorge Pereira da Silva
 
 
                Dizem que o único amor verdadeiro é o amor de mãe; a minha soubera cumprir bem o seu papel até aquele momento. Não sei até que ponto só quis possuir, talvez o espiritismo a facilitasse a lidar com a partida.
 
                Partira de casa havia um mês, deixando pra trás pai, mãe, irmão e cachorro. Deixei tudo pelos estudos; no interior de São Paulo galgaria o titulo de doutor.
 
                Desde que me hospedara no pensionato passei a frequentar o Centro Espirita, por intermédio de um colega de quarto; satisfeito com a forma como as coisas pareciam fazer sentido naquela perspectiva, conheci outras vertentes, inclusive a umbanda.
 
                Soube que alguns espíritas se deslocavam mensalmente para a cidadezinha vizinha a nossa para visitar o tumulo de um beato milagreiro, popularmente conhecido, que em vida fora aleijado.
 
                No ócio de um final de semana foi que resolvi conhece-lo; fiz um mochilão e parti disposto a embrenhar-me pelos mistérios que aludiam ao aleijado no que chamavam turismo tumular.
 
                Fui arremessado daquele interurbano que mais parecia um forno, na rodoviária do Distrito; pairava um sol aterrorizante, fazia uns 38 graus célsius. Foi assim que caminhei até o cemitério, que ficava do outro lado da vila.
 
                Por ser domingo, as pessoas se encontravam em suas residências e me olhavam atônitas, como deviam fazer com cada alienígena que por ali passava. O único bar da cidade concentrava bebedeira e jogatina, próximo, inclusive, ao cemitério.
 
                Este não era largo, poucos túmulos que pareciam diminuir-se quando somados a capela e a sala dos milagres, recentemente construídas para o beato popular, que queriam contrastar com a simplicidade do lugar, mas que, bem observados, misturavam-se.
 
                A única avenida do lugar servia de acesso ao campo santo; do outro lado dela, umas quantas portas fechadas que, durante as festividades de morte do beato, serviriam de vendas para bugigangas e óleos bentos.
 
                Um centro de recepção ao turista anexo parecia não ter sido estreado.
 
                Adentrei-me, uma família chorava um seu ente querido. Havia uma disputa injusta ali, entre os comuns e o santinho, que roubava a atenção da maioria e banalizava os demais mortos que disputavam o espaço do lugar.
 
                Esse pensamento mesquinho ocorreu-me ao me deslocar do portão de entrada à sala dos milagres, por onde preferi entrar, instintivamente, guardando minha expectativa para a capela que lhe cobria o túmulo.
 
                O beato vinha trabalhando bastante, pelo jeito. Havia próteses, fotos, brinquedos, bonecos, cartas, quadros que me pareciam estranhamente familiares, causando a sensação de já ter entrado naquele lugar outras vezes.
 
                Sentia uma espécie de transe que até então desconhecia; minha consciência parecia pairar sobre aquele cômodo, sobre mim e sobre aqueles objetos de apelo popular; Fora isso, não conseguia pensar em nada, mas isso não me fazia mal. Pelo contrário, sentia uma paz de espírito.
 
                Acorri-me à capela, anexa àquela sala. Um degrau abaixo, o túmulo de mármore e uma pintura mal feita do que teria sido o beato. Uma pessoa esguia, corpo de velho e cabeça de criança, que não parecia ser nem um nem outro.
 
                Na parede um atestado médico de óbito, que fazia consubstanciar o mito da própria existência daquela alma: Aqui jaz José da Silva, o menino José, nascido em data desconhecida e falecido em 24 de agosto de 1910.
 
                Eram extremamente lacônicos os detalhes acerca de sua existência, tanto que de inicio essa ausência de provas me incitou dúvidas sérias: Quem em sã consciência dedicava sua fé aquilo? Parecia-me insano o movimento das pessoas em busca de milagres.
 
                Chamou-me a atenção a data de sua morte, exatos cem anos antes do meu nascimento, 25 de agosto há menos de vinte anos. Essa semelhança causou-me um sentimento de aproximação, como se de repente o conhecesse de longa data. Esse sentimento somado a paz de espírito que vinha sentindo me fizeram querer voltar mais vezes. A consciência crítica era sobreposta pelo devir espiritual.
 
                Pensando nisso deixei o túmulo, o cemitério, o distrito. Voltei para casa ao findar a tarde de um domingo que seria histórico. Naquela semana pensaria cada dia mais em Menino Jose e nos efeitos que aquela visita repentina provocava em mim.
 
                Andei pesquisando informações do caso nas poucas fontes que restavam a respeito; soube que a família vivera na região e que ele era o sexto de dez irmãos, sendo o único aleijado, passara a vida em casa.
 
                A família era paupérrima e, segundo contavam, ainda em vida Menino Jose realizava milagres e recebia devotos. Ninguém que o houvesse conhecido sobrevivera pra contar estória, o que tornava tudo aquilo mais intrigante.
 
                Não deixou fotos e o retrato a óleo fora pintado por um conterrâneo; se era fidedigno ou não, causava-me a estranha sensação, ao olhar nos olhos do santo, de estar olhando no espelho, aquelas retinas a óleo pareciam espelhar minha consciência.
 
                Nas reuniões dos Centros, conversei com algumas pessoas; para alguns era um espírito bom que pairava por ali e acompanhava as pessoas em sua fé; para outros era a fé da pessoa que fazia os milagres e o Menino era um elemento ab-reator;  outro contava que durante uma cirurgia espiritual fora acompanhado pelo bom espírito do Menino, e assim por diante, teciam uma infinidade de suposições acerca de sua existência ou não.
 
                Passados quinze dias quis retornar ao povoado. Fi-lo com uma perspectiva mais complexa acerca do que me aguardava ali. Estava sedento de detalhes; obstinação que surpreendia a mim e a quem comigo convivia, visto nunca ter sido dado a essas coisas.
 
                Já no cemitério, antes mesmo de entrar na capela, fui absorvido pela mesma paz de espírito e sensação de elevação da consciência de antes; parecia ter sido tragado por uma dimensão espiritual que pairava a uns cinco metros do chão. Era dali que parecia ver as coisas, e me sentia bem por isso.
 
                Revi os detalhes da exposição de milagres, do jazigo, das orações, as fotografias, passaria horas a fio olhando aquilo; no entanto, todo esse sentimento não era fé, disso não restavam dúvidas.  Não queria que a alma santa desempenhasse qualquer papel pratico em minha rotina, sequer duvidava que ela seria capaz de faze-lo com a vida das pessoas.
 
                Parecia contradito, mas era isso que me acometia; tendia a concordar com aqueles que acreditavam que as pessoas eram curadas por sua própria fé. Sentia era um fetiche, um desejo de estar ali, queria estar dopado por aquela paz de espírito, mas não queria atribui-la a interferência de um espírito santo ou bom.
 
                Pensando nisso surpreendi uma devota orçando preces no tumulo santo. Era uma senhora de uns setenta anos que balbuciava enquanto cotejava um terço, num sincretismo característico de solteironas-beatas-alcoviteiras.
 
                Ia sentir pena da ingenuidade expressa naquela manifestação de fé, mas senti foi um regozijo, algo mais estranho que pudera me acometer naquelas circunstancias. Senti-me eufórico com a dedicação de crença dela, como se aquilo me dissesse respeito. Deixei o local imediato-assustado, a presença de um vivo passou a me incomodar. 
 
                No percurso e em casa refleti sobre os sentimentos que me acometiam e eram canalizados em desejo de voltar mais e mais vezes ao aleijado Jose e beber daquela gratidão popular depositada em objetos de adoração.
 
                Queria conversar com alguém, fosse um médium, um pároco, ou meu colega de quarto. O bom uso da razão me fez deixar de lado essa ideia atônita, pois creriam que eu estava enlouquecendo.
 
                Naquela semana refleti sobre tudo aquilo, bebi de fontes umbandistas e kardecistas de reencarnação e de lembrança de vidas passadas porque algo me conduzia por aquele caminho.
 
                Até que um dia à noite, no silêncio do meu quarto, uma ideia me ocorreu à mente como um estupro: Menino José era eu!
 
                Atordoado, quis olhar pra pintura do santo. Tive certeza que estava olhando para mim mesmo, parecia não restar duvidas que na vida passada eu fora um aleijado que ora era cultuado como santo num distrito vizinho ao centro onde o destino fizera com que eu viesse viver.
 
                A confusão na qual aquela revelação me arremessou foi tamanha que tive náuseas e imergi num estado febril. Quis sair do quarto, respirar, ingerir líquido e ver pessoas, enquanto procurava afastar aquelas ideias obstinadas ou confronta-las com antíteses.
 
                O sono assomou-me ao espírito passavam das duas da manhã; até aquele momento só pensara em menino José e tentava rememorar fatos da vida passada, utilizando técnicas indutoras de auto hipnose.
 
                Durante aquela semana comecei a ser perseguido por uma ideia fixa que, a princípio, parecia inexequível, mas que foi ganhando corpo com o passar dos dias, tamanha minha obstinação por resignar-me, entregar-me, imergir-me naquela profusão de sentimentos que me uniam ao Menino Jose, que era eu, e a minha vida passada.
 
                A coisa adquiriu proporções incontroláveis e num final de semana seguinte àquele resolvi executar meu plano. Saí de casa no sábado de manhã, passei em uma loja de bugigangas comprei dois alarmes sensores, daqueles utilizados em consultórios odontológicos que disparam quando alguém entra na recepção.
 
                Segui para o povoado, onde me familiarizara com as casas e as pessoas; olhava pra elas com um sentimento duplo, de quem fazia parte daquilo, conhecendo-as em suas reminiscências, e de quem sabia que o culto que elas devotavam a um santo era estapafúrdio, uma vez que aquela alma agora era um estudante universitário dos mais comuns.
 
                Cheguei ao cemitério por volta das dez da manhã, o sol estava a pino e não havia uma alma viva (hei de tecer futuramente objeções acerca dessa expressão), tudo conforme planejara.
 
                Posicionei os sensores nas duas portas do campo santo, ouviria quando alguém entrasse, por mais discreto que fosse.
 
                Na sala dos milagres, regozijei-me mais uma vez com aquelas demonstrações de afeto e carinho, li algumas cartinhas e vi algumas fotos, de praxe.
 
                Entrei na capela, encostei-me ao jazigo e senti o fresco do mármore penetrar-me o espírito, causando-me prazer. Não havia tempo a perder e comecei a me despir.
 
                Desnudei-me por completo, deitei-me, de costas, no jazigo e passei a me contorcer, como um tetraplégico, como imaginava fazer na outra vida. Senti um súbito e profundo prazer, estava entrando em transe.
 
                Repeti aqueles movimentos, imitando um aleijado, até eles se tornarem involuntários. Já não distinguia o que era real de um transe. O que era eu e o que era o tumulo, o presente do passado. Era um transe hipnótico e minha consciência sobrevoava aquilo, pairando, como sempre, há uns cinco metros de altura do chão, mas desta vez por completo.
 
                Fui despertado pelo gemido do alarme sensor. Alguém entrara e eu precisava me vestir. Embaracei-me um pouco e mal abotoei a camisa, mas não o suficiente para que a beata percebesse algo.
 
                Era a mesma de sempre. Mal a encarei, senti uma raiva profunda e saí dali exasperado.
 
                Esqueci os alarmes no cemitério, involuntariamente percorri o povoado até o terminal e involuntariamente tomei o primeiro ônibus que já estava de saída. Só recobrei realmente a consciência no caminho, pouco antes de chegar em casa. Dei-me conta do absurdo e do risco ao qual me espora.
 
                Seria catastrófico se alguém me visse naquele estado de espirito; ter-me-iam por louco, necrófilo, assaltante de cemitério, ou sei lá o quê. Coisas horrendas me passaram pela cabeça. Mas o que fizera, de fato, já não me parecia tão absurdo.
 
                Passei a semana seguinte matutando a possibilidade de voltar ao jazigo. Sentia um êxtase inexplicável sentindo o contato gelado do mármore na sepultura que me marcara as costas. Suscitei uma ideia aparentemente mais execrável e menos exequível. Afugentei-a, de imediato.
 
                O passar dos próximos dias comprimiu esse desejo a tal ponto que ele foi espremido para a realidade, como uma gordura cutânea, uma espinha, um berne, um cravo. Já nem cogitava mais a possibilidade de não executá-lo. Fi-lo, um mês antes da festa comemorativa.
 
                Esperei o entardecer de uma sexta-feira para pegar o ultimo ônibus para o povoado. Na mochila, amontoei os objetos de crime. Desci no protótipo de terminal junto aos trabalhadores que voltavam de suas jornadas na metrópole. O bar já estava fechado e as pessoas já haviam precocemente se recolhido, conforme esperado. O cemitério estava fechado.
 
                Não foi difícil esperar anoitecer sem ser notado ali. Aos fundos do cemitério um ermo a perder de vista. Percebi que os alarmes esquecidos nos portões do campo santo permaneciam lá. As pessoas provavelmente se perguntavam o porquê daquilo, sem contudo tomar qualquer atitude prática a respeito, como as pessoas são.
 
                Não hesitei, não podia perder tempo.  Pulei o muro e caminhei até a capela, meio encurvado. Uma sepultura local passara por reforma. Alguém partira naquela semana. Na porta da capela, ajoelhado, com o auxílio de uma lanterna discreta, saquei o pé de cabra e me pus a violar a porta.
 
                Não foi difícil fazer com que aquela estrutura mal preparada para essa espécie de vandalismo cedesse. Muito menos deslocar a peça de mármore que tampava a boca do tumulo. O tempo se incumbira de executar parte do serviço. Tanto que o contato da talhadeira com os tijolos carcomidos produziram poucos ruídos e, em menos de quinze minutos, a porta do jazigo estava escancarada.
 
                Qual não foi minha surpresa. Tamanha minha decepção. Não sentira nada parecido, nem em frustrações amorosas, nem da despedida de casa. Não havia nada no tumulo. Nem vestígio de que algum dia um corpo aleijado ou o que restava dele fora ali depositado. Nada além de poeira.
 
                Plasmei. O peso dos meus ombros me fez plasmar, entre o chão e a parede. Reuni forças, guardei as ferramentas no saco que serviria para acolher os restos mortais do Menino. Pudera o tempo ter consumido tudo, em cem anos? Pesquisaria sobre. No momento, precisava sair dali.
 
                Um pensamento ocorreu-me. Não havia ônibus de madrugada, o que me obrigaria a passar a noite ali. Entrei em desespero pensando nessa possibilidade. Não planejara como deslocar os ossos mortais de volta pra casa, caso os encontrasse. Não caberiam na mochila.
 
                Pensando nisso, resolvi caminhar. Eram vinte quilômetros da província. O fiz sem hesitar. Foi assim que caminhei por mais de cinco horas, o que me fez exaurir. Na estrada rural, nenhuma alma. Na cidade, cruzei uns dois ou três noturnos. Não havia nada anormal com um estudante caminhando à noite com uma mochila nas costas. Temia ser abordado pela polícia, mas livrei-me desse desfortuno e consegui chegar seguro.
 
                Minha vida mudara, mas não somente ela. Mudaria a vida de milhares de devotos e fieis, que se surpreenderiam com a notícia do rapto dos restos mortais de um santo. Sem objeto de ab-reação, não haveria o que cultuar ali.
 
                Nos dias seguintes, conforme esperado, só se via falar nisso na região: “Restos mortais de beato Menino José são roubados em cemitério...a polícia instaurou inquérito para investigar os fatos, mas não há qualquer indício... fiéis lamentam fato... houve quem falou em Ascenção carnal de cadáver incorruptível... o corpo estaria incorrupto e fora transferido por seita satânica...”.
 
                Passou-se o tempo, reconstruíram o jazigo e a festa atraiu mais fieis e/ou mais curiosos que nunca, para minha surpresa. Agora tinha certeza de duas coisas, pois sumiram de mim aqueles sentimentos fetichistas.
 
Pudera até ter vivido outras vidas, mas os sentimentos que nutrira naqueles dias denotavam mais uma sociopatia que uma correlação entre vidas passadas.
 
A fé do homem popular prescinde de provas materiais, tem auto sustentáculos ratificados por um sentimento de carência profunda que germina no clima destes trópicos regado pela matriz humana inigualável que existe aqui, fruto da mestiçagem e do sincretismo religioso.
 
 
Menino José agora era um quadro na parede do meu quarto de pensão que às vezes doía.  
 
Fonte: Jorge Pereira da Silva

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