Gazeta de Amambaí


Segunda-Feira, 13 de Agosto de 2018 às 10:58

Pai, uma história de valor

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Foto: Raquel Fernandes

Raquel Fernandes
Em busca de pais que já foram heróis e bandidos e que hoje são muito mais que amigos para os seus filhos, já retratados naquela velha e conhecida canção do Fábio Júnior, nos deparamos com outras situações nesta relação pai e filho. Encontramos várias histórias interessantes e bonitas, mas a equipe de reportagem do Jornal A Gazeta, buscava pais mais velhos. Resolvemos então dar uma parada no Lar do Idoso e o resultado foi surpreendente.
Nem sempre bons pais são sinônimos de bons filhos, pois as relações humanas são uma caixinha de surpresas. Há diversos tipos de relações em que os filhos mantêm uma proximidade com seus pais, mesmo depois de adultos e de terem constituído família. Seja por amor, necessidade ou por um senso de dever e solidariedade, o vínculo é mantido. Mas, durante uma visita no Lar do Idoso, constatamos que há também filhos muito distantes de seus pais. Não falo de quilômetros, mas sim de sentimentos. 
Vários pais idosos lembram com carinho de seus pais já falecidos, recordando fatos de superação, aprendizados, trabalho, justiça e honestidade. Mas estes mesmos idosos também lembram com carinho e saudade de seus filhos. A grande diferença é que esses filhos, lembrados diariamente por seus pais, estão vivos e muitas vezes moram aqui no município. Em algumas relações, as visitas dos filhos são mais frequentes. Os pais nos explicam que seus herdeiros precisam contar com os serviços do Lar do Idoso, pois não possuem tempo e nem boas condições financeiras. “Eu to aqui, mas meus filhos sempre estão me rodeando”, disse um dos idosos. São muitas histórias, e mesmo com todas as dificuldades estão carregadas de amor.
Mas durante a visita, um diálogo em especial, apesar de simples, realmente me emocionou. Um senhor de 82 anos, simpático e brincalhão, com alguns minutos de conversa, desabafou: “Sinto muita falta da minha casa e quer saber a verdade mesmo, menina? Nenhum filho me quis.” Ao mesmo tempo em que eu via uma ferida cicatrizada, via também que o senhor se sentia mais aliviado pelo desabafo. E sabe o que tocou mais ainda? Ele notou a minha preocupação e disse: “Mas a vida é assim, a gente tem que continuar com o que a gente tem; a gente se acostuma e fica tudo bem”,  me disse com um sorriso no rosto, como uma maneira de aliviar a preocupação que eu havia demonstrado quando me falou de seus filhos ausentes.
Em poucos minutos, ele me mostrou como é um pai carente da presença dos filhos. Meio incomum essa frase, não acham? Estamos acostumados a ouvir o contrário. Mas é a vida, os papéis se invertem e infelizmente nem todos os pais idosos têm o privilégio de ter filhos que possam cuidar deles. Sabemos que cada história está inserida dentro de um contexto que nunca conheceremos o bastante para podermos julgá-la.  Mas quando ouvimos a frase “nenhum dos filhos me quis”, não há como não ficarmos surpresos e reflexivos.
Uma vez me disseram que quando a gente quer algo, a gente dá um jeito e que o amor faz a gente fazer coisas impossíveis e surpreendentes. Vivemos uma época, em que há muitos cursos que nos motivam a fazer coisas extraordinárias, que despertam uma força capaz de vencer qualquer obstáculo e sempre mostram que o amor é o ingrediente que torna as coisas mais leves, seja na área que for. E então? O que acontece com esses filhos cheios de saúde, que vivem suas vidas como se seu o pai não existisse? Falta motivação? Falta amor? São mágoas? Falta perdão? Por que ao menos não visitam os pais com mais frequência?
Uma visita que nos deixou cheios de reflexões e uma mensagem: Inspirados nessa experiência e na música do início do texto, em que o compositor fala, “pai, eu não faço questão de ser tudo, eu só não quero e não vou ficar mudo, para falar de amor pra você”, talvez seja a hora de nós filhos deixarmos de lado tudo o que nos impede de soltar a voz e falar de amor para os nossos pais.
A carência que aquele senhor sente de seus filhos, não pode ser suprida com nenhum presente ou qualquer quantia em dinheiro. Se você ainda não é pai, pode ser que um dia seja e certamente, se chegar até lá, precisará de cuidados durante a velhice. O tempo não pára e não volta. Por isso, seja grato hoje. Só com a gratidão e respeito é possível construirmos verdadeiras histórias de valor.  
 
Texto publicado no Suplemento Especial de Dia dos Pais do Jornal A Gazeta, no dia 10 de agosto de 2018.
Fonte: A Gazeta News

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